PET News

Análise econômica

A qualidade do “Pleno Emprego” Brasileiro

SYSTEM IMPORT04 fev 20264 min de leitura

Informalidade e Precariedade dos Trabalhos Disponíveis no Brasil O Brasil apresenta hoje uma das menores taxas de desemprego de sua história. De acordo com dados divulgados na última quinta-feira (29/01/2026) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com base nas informações do Caged, as quais indicam que o Brasil atingiu uma taxa de desemprego de 5,1%. Estatisticamente, a situação do mercado de trabalho brasileiro é tão boa que alguns economistas, como Maurício Weiss, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), explicam que, no caso do Brasil, quando o desemprego cai para a casa dos 6%, pode-se dizer que a economia está em pleno emprego, segundo alguns critérios dos manuais de teoria econômica. Trata-se de uma situação econômica em que quase todos os trabalhadores aptos e dispostos a trabalhar encontram emprego, com a taxa de desemprego em seu nível mínimo estrutural (geralmente entre 3% e 6%, não sendo desemprego zero). É um cenário de mercado aquecido, sem desemprego cíclico por falta de demanda, indicando uso máximo da capacidade produtiva. Os números, entretanto, camuflam uma situação não tão favorável ao trabalhador, ainda fortemente afetado pela informalidade e pela precariedade dos postos de trabalho disponíveis no Brasil. A principal limitação desse indicador reside na qualidade dos empregos criados. A recente expansão do mercado de trabalho tem se concentrado, em grande medida, em setores de baixa produtividade, com remuneração reduzida e alta rotatividade. Embora essas ocupações desempenhem um papel relevante na absorção da força de trabalho, seu impacto sobre a elevação da renda, a inovação e o crescimento econômico sustentado é restrito. Do ponto de vista estrutural, o país pode permanecer inserido em uma armadilha de baixa qualificação e baixa produtividade. Além disso, a predominância de vínculos informais, intermitentes ou com baixa proteção social agrava essa limitação, pois reduz a estabilidade da renda e a capacidade de planejamento de longo prazo por parte dos trabalhadores. Essa precarização dificulta o acesso ao crédito, à qualificação contínua e ao consumo mais sofisticado, elementos essenciais para dinamizar a economia interna. Ocorre que, no Brasil, a proporção de subempregos é maior do que a média registrada nas maiores economias do planeta: 16%. A título de comparação, nos Estados Unidos, o índice é de 8% e, no México, de 9%. Outra distorção evidente refere-se ao Bolsa Família. Para o IBGE, alguns milhões de beneficiários não se enquadram como desempregados, pois recebem a ajuda e não comparecem a entrevistas nem se cadastram em sites de emprego. Segundo os cálculos de José Márcio Camargo, economista-chefe da Genial Investimentos, se fossem incluídos na conta os milhões de subocupados e o enorme contingente que sobrevive apenas com a renda do Bolsa Família, a taxa de desemprego seria hoje de 15,6%, o triplo da taxa oficial. Ademais, o contexto macroeconômico continua a atuar como um obstáculo à criação de postos de trabalho de maior qualidade. A complexidade do sistema tributário e o alto custo do capital seguem desestimulando o investimento produtivo. Nesse sentido, a redução estrutural da taxa de juros (Selic), atualmente em cerca de 15% ao ano, patamar elevado que encarece o custo do crédito e do financiamento para empresas e investidores, mostra-se fundamental para viabilizar investimentos de longo prazo, sobretudo nos setores industrial, de inovação e da economia do conhecimento. A pesquisa encomendada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) à Nexus destaca que 77% das empresas industriais brasileiras aumentariam seus investimentos nos próximos dois anos caso a taxa Selic fosse reduzida de forma expressiva, evidenciando o impacto direto que os juros elevados exercem sobre as decisões de investimento no setor produtivo. Esse dado não apenas revela a sensibilidade das empresas ao custo do capital, mas também reforça a percepção dos empresários quanto ao peso que a taxa básica de juros exerce sobre a competitividade e a expansão dos negócios no país, um argumento frequentemente citado por economistas industriais e macroeconomistas ao discutir o custo do capital e seus efeitos sobre o emprego de qualidade. Em síntese, embora a taxa de desemprego em níveis historicamente baixos possa, à luz da teoria econômica, ser associada a uma situação de pleno emprego, essa leitura exige cautela no caso brasileiro. Conforme indicam os próprios manuais, o pleno emprego não se define apenas pela quantidade de ocupações, mas também pela capacidade da economia de gerar postos compatíveis com ganhos de produtividade, renda e qualidade de vida da população. A persistência de empregos de baixa qualificação e a presença de entraves macroeconômicos sugerem que o país ainda opera aquém de seu potencial, reforçando a necessidade de políticas que promovam o investimento produtivo, a qualificação da força de trabalho e o crescimento sustentado.