Análise econômica
Reforma Trabalhista de Milei: Retrocesso ou Modernização?

Texto avança para sanção presidencial sob apoio do mercado e críticas de sindicatos e movimentos sociais A reforma trabalhista de Javier Milei, presidente da Argentina, foi uma das primeiras medidas de sua gestão, integrando um pacote ambicioso para reduzir a intervenção estatal e flexibilizar as leis laborais. Apresentada inicialmente via Decreto de Necessidade e Urgência (DNU) no final de 2023 e consolidada na "Lei de Bases" em 2024, a reforma visa reduzir custos de contratação e demissão, buscando oferecer maior previsibilidade jurídica aos empregadores em meio a uma grave crise econômica, marcada por hiperinflação e endividamento externo. A reforma enfrentou resistência inicial na Justiça do Trabalho (que suspendeu trechos do decreto) e na Câmara de Deputados, onde o governo precisou negociar a retirada de pontos polêmicos para garantir a aprovação. Entre os itens modificados ou excluídos estavam a proposta de pagamento parcial do salário em bens ou serviços, a possibilidade de remuneração via plataformas digitais e a redução das indenizações para trabalhadores vítimas de acidentes fora do ambiente de trabalho. A Lei de Bases (Lei nº 27.601/2024), especialmente em seus artigos 16 a 20, detalha as modificações nas regras trabalhistas, como o aumento do período de experiência e a criação do fundo de cessação laboral. Os artigos 22 a 30 tratam da regulamentação da jornada de trabalho, destacando a possibilidade de acordos individuais para a flexibilização de horários e a implementação de bancos de horas. Já o artigo 45 estabelece a aplicação das mudanças em setores essenciais e a limitação do direito de greve. No que tange aos serviços essenciais, a lei impõe que setores listados como essenciais mantenham entre 50% e 75% de funcionamento durante greves, limitando o poder de paralisação sindical. A jornada de trabalho também ganhou contornos de flexibilidade, permitindo bancos de horas negociados, embora o limite de 48 horas semanais permaneça como base constitucional, podendo ser redistribuído. Um ponto crítico foi a eliminação de multas por trabalho informal, medida que o governo defende como incentivo à regularização, mas que críticos apontam como estímulo à precarização. Para os trabalhadores de plataformas digitais, a legislação buscou uma figura de "colaborador autônomo", o que reduz o vínculo empregatício formal. As consequências econômicas da reforma trabalhista de Milei podem ser ambíguas. A médio e longo prazo, a flexibilização das regras pode aumentar a competitividade das empresas argentinas, especialmente em setores como o de indústria e serviços, que enfrentam custos elevados devido às normas trabalhistas. As empresas poderiam reduzir custos com mão de obra, o que, teoricamente, aumentaria a produtividade e a capacidade de atrair investimentos externos. No entanto, a redução dos direitos trabalhistas e a flexibilização das condições de trabalho podem ter efeitos negativos para a qualidade de vida dos trabalhadores e para a informalidade no mercado de trabalho, levando a uma maior precarização do trabalho. Com menos direitos garantidos, muitos trabalhadores podem ser forçados a aceitar condições de trabalho insustentáveis, o que resultaria em um aumento da desigualdade social e uma deterioração das condições de vida. Segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), em 2023, aproximadamente 50% dos empregos na Argentina eram informais, um nível muito alto em comparação com outras economias da OCDE. Além disso, segundo o Buenos Aires Times , a informalidade laboral na Argentina se manteve em 43,2% no segundo trimestre de 2025, refletindo uma realidade de escassez de formalização e proteção social para grande parte dos trabalhadores. Após a aprovação definitiva da Lei de Bases pelo Congresso, o projeto segue agora para a assinatura presidencial, encerrando o processo legislativo. Com isso, a reforma se torna uma realidade para o governo de Milei, e seus efeitos começam a ser aplicados conforme os prazos definidos na própria legislação. Para o Fundo Monetário Internacional (FMI) e representantes do setor empresarial, as mudanças são defendidas como necessárias para fortalecer a competitividade e impulsionar a entrada de investimentos no país. Em contrapartida, movimentos sociais e entidades de direitos humanos alertam para possíveis fragilizações da seguridade social e dos mecanismos de proteção ao trabalhador. No cenário regional, o direcionamento adotado pela Argentina em 2024/2025 difere de países como o México, que optou por reduzir a jornada semanal, e do Brasil, onde avança no Congresso a discussão sobre o fim da escala 6x1, evidenciando distintos caminhos nas políticas trabalhistas da América Latina.